Como anda a lâmina do meu Pivô?

Notícias iCrop      quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

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Porque investiria US$ 600.000,00 para plantar 100 ha de batata sabendo que a lâmina do pivô responsável pela irrigação é muito desuniforme? Que falta pressão e conseqüentemente água em sua extremidade? Que a capacidade de aplicação de água do equipamento não será suficiente para suprir a demanda da cultura exatamente na fase mais crítica? Que todas as aplicações de fertilizantes e defensivos que forem feitas com este pivô gerarão excesso em algumas partes e déficit em outras, aumentando ainda mais a pressão dos patógenos?

Muito provavelmente sua resposta foi: De jeito nenhum! Mas é exatamente isto que grande parte dos irrigantes do país têm feito, investindo milhões de reais em áreas irrigadas sem levar em conta a situação do equipamento no qual todo o retorno desse investimento está ligado. Embora esta seja uma situação comprometedora da rentabilidade do sistema de produção, sem dúvida é o cenário encontrado em todas as regiões irrigantes do país, tanto em sistemas de irrigação por aspersão como localizados, envolvendo pivôs centrais, gotejamento e micro aspersão. Observa-se que os sistemas de irrigação estão sendo sucateados, levando diversos produtores a abandonarem a atividade por falta de retorno, não sendo difícil encontrar situações de maiores produtividades na agricultura de sequeiro em detrimento a irrigada, um contra censo que só o mau uso do sistema pode explicar.

Qual a importância de calibrar meus equipamentos?
O principal ponto a ser levado em conta é a produtividade da cultura. Qualquer desequilíbrio na distribuição de água será refletido em produtividade e o valor desse prejuízo será infinitamente maior que o custo de manutenção deste equipamento. Se pensarmos que 30% da área não estejam recebendo a lâmina média do equipamento (e esta é uma situação comum) em um pivô de 100 hectares de feijão, por exemplo, estamos falando em US$30.000,00 de investimento expostos a risco. Quando pensamos no potencial produtivo destes mesmo 30 hectares, este número pode ser ainda maior.

Além da produtividade, existem prejuízos de difícil mensuração, mas que podem levar a perdas elevadas, como é o caso da lixiviação de fertilizantes e defensivos, o que pode ser potencializado quando os mesmos são aplicados via água de irrigação. No caso de equipamentos descalibrados, toda a aplicação é colocada em xeque, podendo gerar perdas do produto aplicado e ainda aumentar os problemas fitossanitários, o que demandaria ainda mais aplicações.

Toda vez que o irrigante trabalha com equipamentos de baixa uniformidade, há necessidade de aplicação de mais água do que a cultura necessitaria como forma de contornar essa desuniformidade, ou seja, para suprir os pontos que aplicam menos água, joga-se excesso nos pontos que estão dentro do esperado. Isto causa, além da elevação do custo de produção, já que se gasta mais energia do que o necessário, problemas de lixiviação de nutrientes em determinadas regiões da área irrigada podendo, inclusive, causar contaminação das águas subterrâneas.

Quais são os problemas mais freqüentes?
Observando situações de campo nos últimos 10 anos, em milhares de equipamentos, podemos destacar as seguintes situações:

Falta de pressão no sistema:
Principalmente em equipamentos mais antigos, onde já houve desgaste desde os rotores da bomba até os aspersores/gotejadores, passando pelas válvulas reguladoras de pressão e tubulações do sistema.

Sobra de pressão no sistema:
Situação encontrada normalmente em equipamentos novos, onde, ou por erro no levantamento planialtimétrico ou pela chamada “folga de projeto” o conjunto trabalha com mais pressão do que seria necessário para seu bom funcionamento, a custa de um consumo energético desnecessário que dói apenas no bolso do irrigante.

Erros na listagem de bocais:
Este é o problema mais comum e ocorre ou por erro de projeto/redimensionamento, ou por desorganização ou “curiosidade” do pessoal da fazenda que, na ânsia de resolver tudo de forma rápida, acaba não se preocupando com a seqüência correta dos bocais. Tal erro pode gerar, além de desuniformidade na aplicação, falta ou excesso de pressão no sistema, já que são os bocais os responsáveis pela vazão maior ou menor do equipamento.

Desgaste no conjunto motobomba:
Problemas com desgaste de rotores, buchas e anéis são muito comuns e a causa principal disto é, basicamente, a falta de manutenção preventiva. Recomenda-se uma revisão nas bombas a cada 3 anos, o que raramente ocorre no “mundo real”.

Baixa autonomia de Lâmina:
Muitos projetos não atendem a demanda hídrica das culturas nos meses mais críticos. Projetos mais antigos e aqueles muito “econômicos” são os mais suscetíveis a essa situação. O cliente aperta o vendedor que, para concretizar a venda, aperta o projeto, reduzindo sua lâmina. Felizmente os vendedores e, principalmente os produtores, estão começando a se atentar a isto.

Como saber se tenho problemas?
Os equipamentos e principalmente as culturas estão freqüentemente nos dando alguns sinais, mas antes de percebermos isto, é importante fazermos uma análise de alguns pontos. Se não reviso meu sistema motobomba há mais de três anos, é provável que já tenha algum indício de problema. Se meus kits de aspersão já têm mais de 5000 horas de uso, sua eficiência já não é confiável. Se não faço uma limpeza do gotejo há mais de um ano, está na hora de me preocupar. Portanto, se já foi detectado algum destes deslizes, é imprescindível fazer um diagnóstico do equipamento o quanto antes.

Voltando aos sinais que os equipamentos e culturas nos dão, temos uma situação típica que é o mau desenvolvimento da cultura no ponto mais alto do terreno em contrapartida a um alto vigor na região mais baixa. Este é um sintoma típico de falta de pressão no sistema, que pode ter origem tanto no desgaste das válvulas reguladoras, como no desgaste dos rotores das bombas além de um mau dimensionamento do sistema. Em pivôs que possuem canhão na extremidade esta é uma situação comum, já que a maioria destes canhões não possui regulador de pressão e liberam mais água na parte baixa, podendo algumas vezes até “desarmar” o motor, devido ao grande aumento de vazão, que consome mais energia do que o este motor pode oferecer.

Os famosos anéis, também são sinais gritantes da má distribuição de lâmina. Neste caso formam-se círculos no sentido do perímetro do pivô, onde a cultura se desenvolve menos ou mais do que o restante da área, mostrando que naquele ponto a aplicação de água está sendo deficitária ou em excesso em relação à lâmina média aplicada.
Embora estes sinais sejam fáceis de serem percebidos, quando eles ocorrem, já geraram prejuízos. Portanto o ideal é que se contrate uma equipe especializada, para checar o equipamento anualmente.

CUC de 85% é bom?
Este é o conceito que muitos Irrigantes e até mesmo Técnicos têm, mas antes de condenar ou aprovar um equipamento por este número, precisamos entender o que é CUC e como ele é calculado. CUC é a sigla para Coeficiente de Uniformidade de Christiansen, e é uma das formas de avaliação da uniformidade da aplicação de água. A forma de cálculo é basicamente um desvio padrão da média, que nos indica qual a percentagem de área está recendo a lâmina média ou maior, ou seja, dentro dos 85% de área que recebem, pelo menos, a lâmina média, poderão estar ocorrendo diversos pontos de excesso e nos 15% restantes poderão estar havendo severos déficits. Para corrigir esta distorção, é importante verificarmos não só o valor do CUC, mas também a distribuição de lâmina ao longo do raio do Pivô ou das linhas de gotejo, podendo assim detectar alguma fonte pontual de erro. O Gráfico 1 ilustra-se bem uma situação onde o valor não corresponde à realidade. O valor do CUC está em 87,6% porém verificamos diversas regiões com problemas tanto de excesso (círculos azuis) quanto de déficit (círculos vermelhos), e que devem ser corrigidos pontualmente, sob a pena de causarem grandes perdas na cultura. Neste caso, uma análise simples do valor do CUC, induziria um analista desatendo a um grande erro.

O que fazer para garantir a qualidade da Irrigação?
A primeira atitude a se tomar é acabar com as “gambiarras” dos equipamentos. Hoje temos no Brasil o que há de melhor em tecnologia de irrigação, são milhares de cálculos até se conseguir um aspersor eficiente ou uma válvula reguladora que realmente cumpra sua função. Tentar “melhorar” o sistema com um arame, retirando o “miolo” das válvulas ou ainda substituindo os defletores por parafusos certamente não lhe trará grandes lucros.

Outro ponto importante, e que é de responsabilidade da fazenda, é garantir que não haja entupimentos durante a aplicação. Em algumas áreas onde a captação é feita diretamente no curso de água, águas com altos teores de Ferro ou Cálcio e ainda adutoras muito antigas, o desentupimento deve se tornar uma rotina e, embora haja muita resistência do pessoal de campo, tenha certeza que é imprescindível.

Apenas uma conta rápida: um “anel” na última torre de um pivô de 100 ha, corresponde a aproximadamente 0,6 ha, se pensarmos que estamos plantando feijão, e que na área do “anel” produziremos apenas a metade, para uma produtividade de 50 sc/ha, o prejuízo seria da ordem de US$800,00, ou seja, quase dois meses de salário de um funcionário em apenas um “anel”.
Felizmente, em todas as regiões irrigadas do país, os produtores têm acesso a empresas especializadas em engenharia de irrigação. Em média, o mercado tem cobrado US$2,00/metro linear do raio irrigado para se fazer um diagnóstico completo, seguido do redimensionamento. Em um pivô de 100 hectares o custo desse serviço ficaria em torno de US$1.100,00. Caso fosse necessária a troca do kit de aspersão (Válvulas, corpo do aspersor, aspersor e defletores) o custo ficaria em torno de US$2.500,00. Resumindo, com US$36,00/ha se evitariam grandes transtornos, tornando o investimento na cultura algo muito mais seguro. Escolha uma empresa com experiência e, principalmente, referência na região, pois apesar de ser um serviço relativamente barato, exige muita responsabilidade e competência de quem o executa.

Embora o início do artigo tenha tido um ar de agressividade para com os irrigantes, na verdade não são eles os únicos responsáveis pela triste situação atual dos equipamentos de nosso País. Grande parte da culpa está em nós, Técnicos ligados à irrigação, que muitas vezes esperam os produtores detectarem algo que não é de sua alçada para, a partir daí, buscar a solução, ou seja, falta pró-atividade de muitos profissionais em apontar os problemas e mostrar, com números, que é altamente viável a manutenção periódica dos equipamentos.

A experiência prática de diversos anos, nos traz a certeza de que, quando os números aparecem, os irrigantes são os primeiros interessados em buscar uma resolução rápida para seus problemas. Produtor esteja atento aos números, se convença das necessidades de uma boa gestão da irrigação, para que sua atividade seja eficiente, sustentável e lucrativa. Cuide bem do seu equipamento de irrigação e no final o grande beneficiado será você.

André Luis Piovan Boncompani
Engenheiro Agrônomo
Diretor de Tecnologia e Qualidade iCrop

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